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Apesar de ser recente como um título
comercial, “Prey” tem uma história que remete a vários anos
atrás. A produção da 3D Realms foi anunciada pela
primeira vez no ano de 1995, e prometia uma nova tecnologia gráfica
capaz de criar visuais até então nunca vistos. De fato, a
demonstração do jogo na
E3 1998, quando rodava num Pentium 266MHZ com chip gráfico Voodoo
2, deixou a imprensa e os fãs embasbacados, tamanha a qualidade
do que se viu rodando num computador que já não era “top”
mesmo naquele ano. Infelizmente, o jogo sofreu com sucessivas trocas
de membros em seu time de produção, além de outros imprevistos
obscuros que o fizeram cair no limbo por um tempo — até que foi
retomado por volta de 2002 e finalmente lançado para PCs e Xbox 360
no ano de 2006, trazendo um motor gráfico totalmente reformulado. Já
em 2009, foi anunciada uma adaptação de Prey para dispositivos móveis,
que chegou ao Zeebo com o nome de Prey: Evil, uma
versão bastante simplificada.
A versão Zeebo de Prey: Evil
segue basicamente o mesmo enredo do original: fala de Tommy, um índio
Cherokee cansado de viver em seu lugar de origem, embora lá
permanecesse por não conseguir convencer sua namorada Jen a ir
embora. Numa ocasião em que há uma briga num bar em que Jen
trabalha, o planeta Terra é invadido por alienígenas, e os
personagens são sugados para uma nave espacial chamada Sphere (Uau!).
Através de uma explosão causada por um estranho, Tommy consegue
escapar do aprisionamento. E após sofrer uma queda e entrar num
estado de quase-inconsciência, ele encontra-se com o espírito
de seu avô, que o ensina a habilidade de libertar-se de seu corpo,
movendo-se apenas com seu espírito. Toda essa ladainha confusa
serve para justificar as habilidades sobrenaturais de que Tommy faz
uso durante o jogo — ele precisa libertar-se de seu corpo para
progredir em alguns trechos, recebe insights de espíritos
indígenas ajudando-o a resolver impasses, entre outros. Tudo em
prol de salvar a Terra, embora o enredo indique que o herói esteja
mais interessado em sua namorada.
Se tudo isso parece um tanto quanto
confuso para você, a apresentação da versão Zeebo pode deixá-lo
mais relaxado (ou talvez mais perdido ainda). Isso porque não há
qualquer seqüência em CG ou em imagens que explique qual é a do
jogo. Você inicia uma nova partida com apenas uns dois parágrafos
de duas linhas falando sobre a capotagem de um carro, e de o herói
ter acordado no fundo de um vale. Aqueles que não estão nem aí
pra enredos estão em casa aqui, pois vão simplesmente começar a
caminhar, e danem-se os propósitos. Descobrir as mecânicas da
utilização de portais, o motivo de sair de seu corpo ou coisas
parecidas acabam acontecendo “no tato”. Em função disso, o
estranhamento com algumas frases e indicações que vão surgindo
durante as fases deve ser comum.
O jogo está dividido em 5 capítulos,
cada um contendo algumas áreas curtas. Como certamente foi pensado
para ser um jogo Mobile, algumas áreas são tão curtas
que podem ser transpostas em segundos, é só questão de pressionar
o analógico pra frente. Também nota-se, logo de início, que os
cenários são bastante simples, sem quaisquer objetos em movimento
e com poucos inimigos — estes vão surgindo de um a um na maior
parte do tempo, e são poucos para cada área. Isso sem dúvidas é
algo providencial quando pensamos em jogar num telefone, mas tendo
em mãos um controle completo, com 2 analógicos e shoulder
buttons, fica tudo meio parado.

Essa sensação de monotonia já
deve afastar muitos jogadores desde a primeira fase, quando
iniciamos num cenário simples de rochas marrons, com uma chave de
fenda como arma e tendo que derrotar umas aranhas-alien que
aparecem. Mas devo dizer que, insistindo no jogo e passando por
algumas áreas, a coisa até vai melhorando, pois surgem cenários
menos restritos, novos inimigos (embora no total, sejam bem poucos),
outras armas, e quebra-cabeças simples, que colaboram para afastar
um pouco o marasmo. Algo que também ajuda a progressão é que as
áreas pelas quais passamos ficam disponíveis para serem
selecionadas no menu inicial, ou seja, é sempre possível iniciar
novas partidas a partir de quaisquer desses pontos, inclusive
utilizando em trechos iniciais as armas que conseguimos mais
adiante.

Os gráficos de Prey: Evil são
simples, mas não são feios. As cores e texturas utilizadas nos cenários,
por exemplo, são bastante razoáveis; se pararmos pra pensar,
grande parte delas são superiores a um bom número de títulos para
N64 e PSOne. O que prejudica essa impressão são algumas animações:
efeitos de fumaça, fogo ou sangue, por exemplo, são bastante
pobres; os inimigos também não são um primor nesse aspecto, a
maior parte deles conta com poucos quadros de movimento. Isso parece
ser falta de polimento ou capricho nesses “detalhes”, e não uma
limitação do jogo, já que em alguns trechos vemos animações
bacanas (vide as criaturas voadoras que surgem sempre que Tommy
morre a partir da terceira ou quarta fase).

Falando sobre a parte sonora,
pode-se dizer que o jogo é contido, até demais. Quase todo o tempo
ouvimos a uma mesma música de fundo, que não é das mais
elaboradas. Os sons das armas e dos inimigos são bastante apagados.
Além deles, também ouvimos algumas frases aqui e ali, sejam de
Tommy ou de seu espírito conselheiro — e ao contrário de todos
os textos, esses sons não foram localizados para o nosso Português.
Apesar de tantas referências
negativas, é possível dizer que Prey: Evil é um jogo bastante
apropriado quando o vemos rodando numa tela pequena de um gadget.
A menor resolução, a limitação dos controles, o uso “casual”
que se faz de jogos em telefones, tudo isso parece ter sido levado
em consideração quando esse port foi produzido, e ele se adapta
bem a tais características. Entretanto, quando pensamos num console
de mesa, mesmo que um console não tão poderoso, o tipo de dinâmica
que essa adaptação apresenta é um pouco restritiva demais. Não
parece realista pensar que poderia haver uma grande reformulação
do título para torná-lo melhor compatível às possibilidades do
Zeebo (que devem ir um bocado além disso). Prey: Evil é,
claramente, mais um trabalho pouco elaborado para compor uma lista
inicial de jogos. Mas, sem dúvidas, a expectativa dos consumidores
é de que esse tipo de lançamento não seja uma prática dominante
no futuro — até porque, mesmo sem falar em jogos “exclusivos”
para o Zeebo, existem produções para celular que não sofreriam
tanto com a transição para um console de mesa.
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